quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Mulheres Possíveis



Mulheres Possíveis

Vale a pena ler até o final!!


Mulheres
Possíveis


(Texto da
Revista do Jornal O Globo)


'Eu
não sirvo de exemplo para nada, mas, se você
quer saber se


isso é possível, me ofereço como piloto
de testes. Sou a Miss




Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que
precisa



fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que
também sou:




trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao
supermercado,




decido o cardápio das refeições, cuido
dos filhos, marido (se tiver),




telefono sempre para minha mãe, procuro minhas
amigas, namoro, viajo,




vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e
mails,




faço revisões no dentista, mamografia, caminho
meia hora diariamente,




compro flores para casa, providencio os consertos
domésticos e ainda




faço as unhas e depilação!



E, entre uma
coisa e outra, leio livros.



Portanto, sou
ocupada, mas não uma workholic.



Por mais
disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas




coisinhas que operam milagres.



Primeiro: a
dizer NÃO.



Segundo: a
não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa




por nada, aliás.



Existe a Coca
Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na




sua lista a Culpa Zero.



Quando
você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da




maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir
daquele momento




você seria modelo para os outros.



Seu pai e sua
mãe, acredite, não tiveram essa expectativa:
tudo



o
que desejaram é que você não chorasse
muito durante as madrugadas e




mamasse direitinho.



Você
não é Nossa Senhora.



Você
é, humildemente, uma mulher.



E, se
não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir,




bye-bye vida interessante. Porque vida interessante
não é ter a




agenda lotada, não é ser sempre politicamente
correta, não é topar




qualquer projeto por dinheiro, não é atender a
todos e criar para si



a
falsa impressão de ser indispensável. É
ter tempo.



Tempo para
fazer nada.



Tempo para
fazer tudo.



Tempo para
dançar sozinha na sala.



Tempo para
bisbilhotar uma loja de discos.



Tempo para
sumir dois dias com seu amor.



Três
dias.



Cinco dias!



Tempo para
uma massagem.



Tempo para
ver a novela.



Tempo para
receber aquela sua amiga que é consultora de




produtos de beleza.



Tempo para
fazer um trabalho voluntário.



Tempo para
procurar um abajur novo para seu quarto.



Tempo para
conhecer outras pessoas.



Voltar a
estudar.



Para
engravidar.



Tempo para
escrever um livro que você nem sabe se um dia
será




editado.



Tempo,
principalmente, para descobrir que você pode ser




perfeitamente organizada e profissional sem deixar de
existir.



Porque nossa
existência não é contabilizada por um
relógio de




ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam
nossa




caixa postal.



Existir, a
que será que se destina?



Destina-se a
ter o tempo a favor, e não contra.



A mulher
moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for




super, se não for mega, se não for uma
executiva ISO 9000, não será




bem avaliada. Está tentando provar
não-sei-o-quê para não-sei-quem.



Precisa
respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada




pedacinho de si.



Se o trabalho
é um pedação de sua vida,
ótimo!



Nada é
mais elegante, charmoso e inteligente do que ser




independente.




Mulher que se sustenta fica muito mais
sexy e muito mais livre




para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons
momentos da




semana para usufruir essa independência, senão
é escravidão, a mesma




que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela
janela.



Desacelerar
tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa




Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da
M.A.C.



Mas, se
você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo
isso,




francamente, está precisando rever seus valores.



E descobrir
que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica
à




beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto
lavado) podem ser




prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre
o que é,




afinal, uma vida interessante' .







Martha
Medeiros - Jornalista e escritora

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